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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Diante da Lei

Franz Kafka

 Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.

- É possível - diz o porteiro. - Mas agora não.
 Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.

 O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:

- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.

 Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.  Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:

- O que é que você ainda quer saber? - pergunta o porteiro. - Você é insaciável.
- Todos aspiram à lei - diz o homem. - Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
 O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só para você. Agora eu vou embora e fecho-a.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Anotação do ano de 1920

Franz Kafka - "Ele"


"Em nenhuma ocasião está suficiente preparado, nem sequer se lhe pode reprovar isso, porque, como poderia ter tempo para se preparar antecipadamente nesta vida que de modo tão doloroso exige estar pronto a cada instante? E ainda que o tivesse, como estar preparado sem conhecer o problema que é preciso resolver? Quer dizer: é realmente possível superar uma prova espontânea, imprevista, não disposta artificialmente? Por isso há tempo que foi destroçado pelas rodas; para essa ocasião - é curioso mas confortador - estive menos preparado do que nunca."

[...]

"Há quem nega a aflição apontando o sol; ele nega o sol assinalando a aflição.
O movimento ondulatório de toda vida, da própria e da alheia, lacerante, tardo, às vezes muito tempo detido, mas no fundo interminável, tortura-o porque aparelha a igualmente interminável exigência de pensar. Às vezes parece-lhe que esta tortura precede os acontecimentos. Quando se inteira de que nascerá o filho de um amigo, reconhece que já sofreu antes por isso como pensador.

[...]

"Mas não podia desejar dessa forma, já que esse desejo não era um desejo, era apenas uma defesa, uma admissão do nada, um sopro de vitalidade que queria conferir ao nada, no qual nessa oportunidade apenas aventurava os primeiros passos conscientes, mas sentindo-o já como seu elemento. Era como uma despedida do mundo das aparências da juventude, embora esta nunca o tivesse enganado diretamente, porém apenas através da palavra das eminências. O 'desejo' tornou-se pois necessário.

[...]

"O pecado original, a velha culpa do homem, consiste na censura que formula e na qual reincide, de ter sido ele a vítima da culpa e do pecado original."

[...]

"Certo cansaço impede-lhe erguer-se, a sensação de estar protegido, de jazer em um leito preparado para ele e que lhe pertence exclusivamente; mas não pode descansar, a intranquilidade expulsa-o do leito, impede-se-lhe a consciência, o coração que bate sem termo, o temor à morte e o desejo de refutá-lo. Torna a erguer-se. Esta agitação e algumas observações vagas casuais, fugitivas, constituem sua vida."