Passo de Gigante

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Os leões e os medos

“Aqueles leões não emergiram do mato. Eles nasceram do último conflito armado. Repetia-se, agora, a mesma desarrumação de todas as guerras: as pessoas tornaram-se animais e os animais tornaram-se gente. Durante as batalhas, cadáveres foram deixados no campo, nas estradas. Os leões comeram-nos. Naquele preciso momento, os bichos quebraram o tabu: começaram a olhar as pessoas como presas. O cego, enfim, encerrou o longo discurso:

- Já não somos donos, nós os homens. Agora, eles mandam no nosso medo.

Depois discorreu com eloquência e sem interrupção:

- Aconteceu o mesmo no tempo colonial. Os leões fazem-me lembrar dos soldados do exército português. Esses portugueses tanto foram imaginados por nós que se tornaram poderosos. Os portugueses não tinham força para nos vencer. Por isso, fizeram com que as suas vítimas se matassem a si mesmas. E nós, pretos, aprendemos a nos odiar a nós mesmos.

O velho falava como se discursasse, pleno de certeza. Naquele momento, ele era um soldado. Uma imaginária farda cingia-lhe a alma.”


Mia Couto, em "A confissão da leoa"

sexta-feira, 4 de abril de 2014

SÊNECA, Sobre a brevidade da vida



“A maior parte dos mortais, Paulino, lamenta a maldade da Natureza, porque já nascem com a perspectiva de uma curta existência..." 25

"Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permite que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. [...] São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza."  30

"Agradar-me-ia questionar qualquer um dentre os mais velhos: 'Vemos que já atingiste o fim da vida, tens cem ou mais anos. Vamos, fez o cálculo da tua existência. Conta quanto deste tempo foi tirado por um credor, uma amante, pelo poder, por um cliente. Quanto tempo foi tirado pelas brigas conjugais e por aquelas com escravos, pelo dever das idas e vindas pela cidade. Acrescenta, ainda, as doenças causadas por nossas próprias mãos e também todo o tempo desperdiçado. Verás que tens menos anos do que contas'."  30-1

"Temes todas as coisas como os mortais, desejas outras tantas tal qual os imortais." 31

"Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo. Julgas que navegou muito aquele que, tendo se afastado do porto, foi pego por violenta tempestade e, errante, ficou à mercê dos ventos, ao capricho dos furacões, sem, no entanto, sair do lugar? Ele não navegou muito, apenas foi muito acossado."  43

"A velhice aflige tanto os seus espíritos infantis, que chegam a ela despreparados e desarmados. Na verdade, nada foi previsto: subitamente e sem estarem prontos chegam a ela, não percebendo que ficava mais próxima todos os dias."  47

"Se quisesse dividir minha proposição em partes e argumentos, muitos deles me ocorreriam para provar que é brevíssima a vida dos homens ocupados."  49

"A vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será."  49

"Na verdade, eles [os homens ocupados] não tem tempo para olhar para o passado e, se tivessem, lhes seria desagradável a recordação de algo penoso."  50

"Uma alma segura e tranquila pode correr por todos os momentos da vida; todavia, os espíritos dos homens ocupados estão sob um jugo, não podem se dobrar sobre si próprios, não podem se contemplar. Por conseguinte, a sua vida se precipita nas profundezas e, assim, como de nada serve encher com líquido uma vasilha sem fundo, nada pode trazer de volta o tempo, não importa quanto ele te foi dado, se não há onde retê-lo. Ele atravessará os espíritos abalados e que nada apreendem." p 51

"somente o tempo presente pertence aos homens ocupados, tempo este tão breve que não pode ser alcançado e que é retirado deles já que está distraídos com muitas coisas." 51

"Velhos decrépitos desejam com súplicas um prolongamento de poucos anos. Eles fingem ser mais novos do que realmente são [...] morrem amedrontados, como se não estivessem deixando o vida, mas ela estivesse sendo arrancada deles." 52

"Perguntas, talvez, a quem chamo de 'ocupados'? Não há razão para pensares que se trate somente daqueles que só saem do tribunal quando lhes são enviados os cães [ao apagar das luzes]..."  54

"Há aqueles cujo ócio mesmo é ocupado: seja na casa de campl, em sua cama, na solidão [...] Deles não se pode dizer que a vida seja ociosa, mas apenas que possuem uma ocipação indolente." 54

"É tamanha a debilidade e enfraquecimento de seus espíritos, que eles não conseguem saber por si próprios quando sentem fome!"  57

"Devemos perdoar também aos que investigam matérias como esta: quem foi o primeiro a convencer os romanos a embarcar em um navio? Foi Cláudio, por este motivo chamado Caudex, porque, entre os antigos, a reunião de várias tábuas era chamada de caudex; de onde o nome de códices para as tábuas de lei. Ainda hoje, os navios que carregam provisões pelo Tibre são chamados, à maneira antiga, de codicariae."  60

"... Pompeu foi o primeiro a mostrar um combate, no circo, com dezoito elefantes, tendo sido enviados criminosos para enfrentá-los como se fosse uma batalha?" 61

"Seria bom que isso fosse esquecido para que, mais tarde, alguém não aprendesse e invejasse uma ação, no mínimo, desumana. Quantas trevas uma grande felicidade causa às nossas mentes! Acreditou estar acima das leis da natureza quando atirou o bando de miseráveis a feras nascidas sobre outros céus, quando proporcionou uma batalha entre animais tão díspares, quando fez correr muito sangue diante do povo romano - aquele que, em breve, seria obrigado a verter muito mais."  61-2

Promerium - espaço sagrado onde não era permitido construir, nem plantar, situado fora das muralhas de Roma.

"Dentre todos, somente são ociosos os que estão livres para a sabedoria, apenas estes vivem, pois não só controlam bem sua vida, como também lhe acrescentam a eternidade."  64

"Os que se envolvem com muitos compromissos, os que inquietam a si e aos outros, conscientes de suas insânias, após terem percorrido, todos os dias, as portas de todos e não ter deixado de entrar em nenhuma que estivesse aberta, após terem levado sua saudação interesseira às mais longínquas casas, muito pouco terão visto numa cidade tão grande e dilacerada por inúmeros desejos."  65

"É lícito afirmar que se dedicam aos verdadeiros ofícios os que querem desfrutar, todos os dias, da intimidade de Zenão, Pitágoras, Demócrito, Aristóteles, Teofrasto e de outros mestres das boas artes." 66

"Nenhum deles vai te levar para morte, todos te ensinarão a morrer; nenhum deles desperdiçará teus anos, te oferecerá os seus..."  67

"Algo se perde no passado? Ele recupera com a memória. Está no agora? Ele desfruta. Há de vir com o futuro? Ele antecede. A união de todos os tempo em um só momento faz com que sua vida seja longa."  69

"Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estiveram ocupados fazendo nada." 70

"Talvez daí resulte o delírio dos poetas que alimentam os erros dos homens com histórias nas quais se mostra Júpiter, embevecido pelo desejo do coito, duplicando a duração da noite"[Júpiter, para conquistar Alcmena e desfrutar mais de sua companhia, faz a noite durar o dobro]. 71

"O mais insolente rei dos persas [Xerxes], quando, por grande espaço de campos, estendia o seu exército, o qual não podia medir pelo número, mas sim pela extensão, verteu lágrimas, porque, em cem anos, ninguém desta multidão de jovens haveria de estar vivo."  72

"E então, as alegrias deles são ansiosas? É que não se apoiam sobre fundamentos sólidos, mas são perturbadas pela mesma inutilidade que as origina."  72-3

"Os maiores bens demonstram inquietude, e as maiores fortunas são as menos confiáveis. [...] De fato, tudo aquilo que vem por acaso é instável, e o que mais alto se eleva, mais facilmente cai." p 73
"ambição provoca ambição" p 73

"Que estado de ânimo tinham aqueles aos quais eram confiados os abastecimentos públicos, ameaçados com ferro, pedras, fogo, e pela fúria de Calígula? Com enorme dissimulação, escondiam um mal latente embutido entre as vísceras do Estado e, digo, agiam assim com razão. De fato, algumas doenças devem ser curadas com a ignorância dos pacientes; muitos morreram por conhecer a causa do seu mal."  78-9

"Certamente, miserável é a condição de todas as pessoas ocupadas, mas ainda mais miserável a daqueles que sobrecarregam a sua vida de cuidados que não são para si, esperando, para dormir, o sono dos outros, para comer, que outro tenha apetite, que caminham segundo o passo dos outros e que estão sob as ordens deles nas coisas que são as mais espontâneas de todas - amar e odiar. Se desejam saber quão breve é a sua vida, que calculem quão exígua é a parte que lhes toca."  81

"Por isso, quando vires, com frequência, uma toga pretexta ou um nome célebre, no foro, não tenhas inveja, já que essas coisas se obtêm a custo da própria vida. A fim de que um único ano lhes seja dado, consumirão todos os seus anos." 82

"Vergonha daquele a quem, pela idade avançada, falta fôlego no tribunal, defendendo causas vis e buscando o aplauso de um auditório ignorante."  82

"Alguns chegam a organizar aquelas coisas que estão além de suas vidas: a construção de grandes mausoléus, a dedicatória de serviços públicos e jogos fúnebres e orgulhosas exéquias. Francamente, os funerais destes, como se tivessem vivido pouquíssimo, deveriam ser conduzidos à luz de tochas e velas." 84

Tradução: Lúcia Sá Rebello, Ellen Itanajara Neves Vranas, Gabriel Nocchi Macedo. - Porto Alegre: L&PM, 2013.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

PIPOCA

Por Rubens Alves

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

De repente vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem o fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! – e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

“Morre e transforma-te!” – dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja... Cheguei a consultar o Aurélio para confirmar. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á”. A sua presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

 Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

“Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.”

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Lobo e a Golfinha

Quadro de Maria Lucia Amorim Macedo Possas

 A minha avó conta uma lenda sobre o encontro de um lobo com uma golfinha. Uma história que aconteceu antes dos portugueses chegarem aqui em Niterói, e que os índios, por algum motivo, contaram apenas aos franceses.

Em um pôr-do-sol de primavera, um uivo de um lobo na pedra do pampo, em Itacoatiara, desperta a atenção de uma golfinha que nadava com seu grupo por perto, eles estavam indo para a Baía de Guanabara. Nessa hora, a golfinha se destaca do grupo e acompanha o segundo uivo do lobo. Assiste e nada até tão perto da pedra que conseguem se ver com auxílio do reflexo da lua cheia no espelho da água do mar, que estava prateada.


Um sinal com a barbatana da golfinha desperta o olhar do lobo, que late! A golfinha salta, o lobo late, late e late. Ela se esconde na água enquanto o lobo late. A golfinha salta novamente e o lobo late. Isso acontece por algumas vezes até que ela levanta o corpo para fora da água e assobia. O lobo fica encantado e silencia.


A golfinha nada para um lugar mais raso na prainha, o lobo pula no mar. A golfinha assiste o lobo nadar com dificuldade de dentro da água, coloca seu focinho nas costas do lobo e sente o pelo pela primeira vez. Os olhos dela alargam-se e escurecem com a excitação e, em seguida, acaricia as costas do lobo, que se vira e arranha a golfinha com o movimento das patas. Foi sem querer, mas ela foge e o lobo volta para a praia.


Em seguida a golfinha coloca a cabeça para fora da água e assobia, nadando para o raso. O lobo caminha até um lugar que consegue ficar em pé, onde a golfinha também consegue ir. O lobo cheira a pele da golfinha e com o nariz percebe como é lisa e suave! Ela vira o corpo roçando nos pelos do lobo e fica com a barriga para cima. Nessa hora o lobo lambe a barriga da golfinha, justamente onde fica seu órgão genital. A excitação foi mútua.

Segundo minha avó, no dia seguinte o lobo foi até Itacoatiara e não encontrou mais a golfinha. Pensando nisso o lobo foi tomar cauím (uma bebida alcoólica da mandioca) com dois amigos velhos da Serra de Tiririca: o Xauim (um tipo de macaco) e a Cuíca (uma rata com rabo comprido), ele precisava de alguns conselhos. Depois de vários goles, surge uma discussão.

O Xauim falou que ele tinha que criar um ayty (ninho) pra golfinha. O macaco velho ainda disse para levá-la para alguma araruama (terrra de papagaios), porque, segundo ele, os golfinhos são ararê (amigo dos papagaios). A Cuíca retrucou e disse que pirá (peixe) não faz ninho, e que apesar dela gostar Aram (Sol), provavelmente pegará em seu caminho de volta uma arani (tempo furioso) e nem conseguirá voltar.  Segundo ela, ainda, toda golfinha é apuama (que não pára em casa, veloz, que tem correnteza).

Xauim, completamente bêbado, deu um tapa na bunda da Cuíca e chamou ela de burra! Primeiro porque golfinho não é pirá, mas um mamífero; segundo, porque todo guará (lobo) é apoena ( que consegue ver longe), e que não cairia em historinhas pra provocar ciúmes de uma Cuíca bêbada! Disse ainda que o golfinho parece goitacá (nômade), mas gosta mesmo é de um bom ayty! Cuíca mordeu o próprio rabo e concordou com Xauim. Mas disse que se realmente ela é uma Yara (uma deusa das águas) que podem querer prendê-la numa carioca (casa de homem branco).

Nessa hora Xauim subiu rápido na árvore, catou uma carambola do pé e jogou em Cuíca, que se escondeu em um buraco, só que o buraco estava com água e ficou cheia de lama. O lobo e o Xauim riram muito da Cuíca quando ela diz que vai embora, com vergonha.

A noite terminava e o Sol já aparecia no Mourão quando Xauim lembra ao lobo que não há impossibilidade de um amor entre duas espécies diferentes, mas que todo amor é uma espécie de possibilidade da diferença.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A todos falta um adereço.



Diz-se que a Alegria, a Tristeza, a Tragédia e a Sacanagem se encontraram numa esquina certo dia e prometeram fazer de cinco dias o reino da verdade e da mentira!! Como todos ficariam com muitas dúvidas, resolveu-se que tudo acabaria numa quarta-feira, sem dó nem piedade! Para o bem ou para o mal!

No Carnaval, seja na rua ou na Sapucaí, cada pessoa está fantasiada. Mesmo aquelas não fantasiadas se sentem e sabem que a roupa que estão vestindo não passa de uma fantasia de algumas disponíveis no armário.

Na Sapucaí, se você tiver algum problema com a sua fantasia ou dúvida sobre como desfilar haverá sempre a quem perguntar. Lá terá bem próximo um grupo da sua Escola de Samba com a camisa escrita: DIRETORIA. E se você perguntar onde deve arrumar os adereços que faltam, respondem: "Só falando com o presidente, tô aqui com ele”. Ou: “procura sua ala” – com um ar de superioridade que constrange uma segunda pergunta.

Todos mandam, todos sabem e ninguém responde. De repente surgem alguns Mestres da bateria bebendo cerveja, andando rápido, falando e gargalhando. Não, esses não devem saber onde ficam os adereços.

Nesse momento, cruza a rua uma mulher que não pode ser só uma mulher, era uma Rainha! Seios pintados, corpo escultural, mas séria!  O tamanho do biquini era tão pequeno que ela mesma anda segurando um chapéu para proteger a bunda dos olhares, inclusive do meu. Essa não saberia onde ficam os meus adereços, se nem os dela ela trouxe!

Quanto mais próximo o momento do desfile mais aumenta o número de Diretores da Escola, ninguém sabe informar e todos sabem de tudo.  De repente surge um Diretor dizendo que viu algumas pessoas com minha fantasia aglomeradas próximas de uma rua antes da Sapucaí. Quando chego lá percebo que era um grupo de mineiros, que mal sabiam vestir as próprias fantasias - esses deveriam ser os palhaços.

Aparece uma Tia, simples e sorridente, essa sabia de tudo! Até para um cientista social que pela primeira vez desfila. Cheio das teorias, cheio da ciência que sabe que ali não existem Mestres, Diretores e só sonhadores como ele próprio nesse dia.

Quando a aflição do “pelo amor de Deus”, vira “pelo deus do Amor”: aparecem os fogos. A avenida bate palma, a bateria começa a explodir, o calor aumenta, o sorriso aparece, a calma chega, a cerveja já está gelada! Nessa hora, amigo Jatobá, eu também sou um Rei! Para alguns é uma tragédia, para outros uma comédia, mas todos a comentar-te, a falarão como arte! A arte de comprimentar sem títulos, hierarquias, dúvidas ou preconceitos nossos palhaços, reis, diretores, colombinas e rainhas! A Alegria, a Tristeza, a Tragédia e a Sacanagem inventaram a quarta-feira de cinzas, mas não disseram o que seria queimado, isso cada um escolhe: se queimamos nossas mentiras ou nossas verdades!

Rodolfo Lobato, carnaval de 2013.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Anotação do ano de 1920

Franz Kafka - "Ele"


"Em nenhuma ocasião está suficiente preparado, nem sequer se lhe pode reprovar isso, porque, como poderia ter tempo para se preparar antecipadamente nesta vida que de modo tão doloroso exige estar pronto a cada instante? E ainda que o tivesse, como estar preparado sem conhecer o problema que é preciso resolver? Quer dizer: é realmente possível superar uma prova espontânea, imprevista, não disposta artificialmente? Por isso há tempo que foi destroçado pelas rodas; para essa ocasião - é curioso mas confortador - estive menos preparado do que nunca."

[...]

"Há quem nega a aflição apontando o sol; ele nega o sol assinalando a aflição.
O movimento ondulatório de toda vida, da própria e da alheia, lacerante, tardo, às vezes muito tempo detido, mas no fundo interminável, tortura-o porque aparelha a igualmente interminável exigência de pensar. Às vezes parece-lhe que esta tortura precede os acontecimentos. Quando se inteira de que nascerá o filho de um amigo, reconhece que já sofreu antes por isso como pensador.

[...]

"Mas não podia desejar dessa forma, já que esse desejo não era um desejo, era apenas uma defesa, uma admissão do nada, um sopro de vitalidade que queria conferir ao nada, no qual nessa oportunidade apenas aventurava os primeiros passos conscientes, mas sentindo-o já como seu elemento. Era como uma despedida do mundo das aparências da juventude, embora esta nunca o tivesse enganado diretamente, porém apenas através da palavra das eminências. O 'desejo' tornou-se pois necessário.

[...]

"O pecado original, a velha culpa do homem, consiste na censura que formula e na qual reincide, de ter sido ele a vítima da culpa e do pecado original."

[...]

"Certo cansaço impede-lhe erguer-se, a sensação de estar protegido, de jazer em um leito preparado para ele e que lhe pertence exclusivamente; mas não pode descansar, a intranquilidade expulsa-o do leito, impede-se-lhe a consciência, o coração que bate sem termo, o temor à morte e o desejo de refutá-lo. Torna a erguer-se. Esta agitação e algumas observações vagas casuais, fugitivas, constituem sua vida."