Passo de Gigante

Faz de conta...









terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Pandemias (in)civilizatórias

          Há muitas análises que comparam a gripe espanhola à pandemia do novo coronavírus. Apesar das muitas semelhanças entre os vírus que dizimaram milhares de pessoas em todo o mundo, vale contextualizarmos a relação entre as epidemias e as novas formas de organização social que emergiram. Tal como no passado, vemos hoje parte da população orientada politicamente contra a ciência, contra as universidades, contra as autoridades sanitárias e, por incrível que pareça, até contra as vacinas. Então, devemos recordar o que foi uma medicina pré-moderna e sua superação.

Imaginemos uma cidade em que os mercados são as próprias ruas, com alimentos e produtos expostos pelas calçadas, dificultando o trânsito de pessoas. O mau cheiro por onde passamos, com rios poluídos se confundindo com o odor de lixos e animais. Bairros construídos de forma desordenada formando quase um labirinto de becos, misérias e precariedade. Pois bem, não estamos falando do Rio de Janeiro, mas de Londres ou Paris entre o fim da Idade Média e a consolidação de suas áreas urbanas.

A existência de pobreza, tal como a sujeira e os esgotos, passou a ser um problema com as epidemias, em especial com a propagação da cólera no século XIX. Daí o nascimento do medo em torno da articulação entre os riscos econômicos, sanitários e políticos. Como demonstra Michel Foucault, em “Microfísica do Poder”, nesse cenário caótico a medicina se desenvolve com as transformações das estruturas urbanas, tanto para responder à necessidade de controlar os pobres quanto para evitar as doenças e as epidemias. Era necessário disciplinar os corpos nesses amontoados humanos, assim como contabilizar os óbitos, padronizar a prática médica, organizar os cemitérios, cuidar e tratar os esgotos e as águas. Enfim, emergem duas noções importantes: a salubridade e a higiene pública.

Um símbolo dessa mudança paradigmática é a diferença do tratamento entre a lepra e a peste. Seguindo uma lógica pré-moderna, quando um leproso era descoberto ele era expulso do convívio, colocado para fora dos muros da cidade. De outro lado, para responder à peste, em vez de expulsar, utilizou-se o poder político da medicina para segregar e distribuir os indivíduos, individualizá-los e vigiá-los. Dessa forma, foi possível entender como a doença evoluía, realizar um registro controlado de cada caso, inspecionar o território e as casas.

O medo dos pobres, das revoltas e das epidemias fez surgir, na Inglaterra, os sistemas de health service e health officers (1875). Procurava-se realizar o controle de vacinação, organização e registro de epidemias e a localização/destruição de lugares insalubres. Esse mesmo sistema que surge na Inglaterra no século XIX foi a inspiração para a criação do SUS, no Brasil, em 1988. O sistema inglês está entrando em seu terceiro século de existência, enquanto o SUS está completando apenas três décadas. Para o enfrentamento da atual pandemia temos como fator positivo, mesmo que em suas fases iniciais de estruturação, o maior sistema público de saúde pública do mundo.

Há uma semelhança com o sistema inglês em suas origens, que é o enfrentamento de grupos de natureza política/religiosa e messiânica que defendem o direito das pessoas de não passarem pela medicina oficial, o direito de se curar e morrer como quiserem. Uma espécie de liberalismo, como se a responsabilidade pública pudesse ser diluída em responsabilidades individuais, como se não houvesse uma relação entre a miséria e a opulência. Por isso, uma das lutas mais importantes que travamos hoje é a da memória, tanto daqueles que perdemos na pandemia, quanto das conquistas civilizatórias.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

CONFRATERNIZAÇÃO ACADÊMICA

“O Estado” – Niterói, 6 de agosto de 1933


É bem uma quadra de verdadeiro renascimento que ora oferece o Brasil. A mocidade estudiosa promovendo, incentivada pelos innumeros Centros e Diretórios de nossas escolas superiores, o intercambio e a approximação de seus representantes tem dado provas evidentes de sublimes aspirações baseadas todas, unicamente, no desejo de possuir uma pátria melhor, mais enérgica e capaz de maiores feitos.

Iniciativas de tamanho vulto, que visam ideias tão bellas, traduzem o espírito de classe e merecem o apoio de todos nós, são dignas dos maiores louvores e dos mais sinceros applausos.

E foi neste ambiente que há pouco recebemos as embaixadas gaúchas e pernambucanas chefiadas por eminentes mestres, as quaes, partindo de plagas distantes, aqui estiveram no desempenho de tão elevada e nobre missão. A mocidade brasileira, então representada por uma luzida plêiade de estudantes destes três Estados, uma eloquente manifestação de fraternidade e em perfeita comunhão de ideais, augurava para o futuro das relações mais estreitas e solidas entre os seus componentes.

Agora, são os acadêmicos fluminenses que, em retribuição à visita dos dignos collegas, estão de malas promptas prestes a zarpar para Recife numa jornada de confraternização. A frente da comitiva, e representando o corpo docentes da Faculdade de Direito de Nictheroy, seguirão o jovem e brilhante professor dr. Telles Barbosa, cujos esforços, em prol dessa realização, têm sido incalculáveis e o dr. Oscar Przwodowski, também figura destacada da Congregação.

Baseado nos princípios de solidariedade e demonstrando mais uma vez o seu alto espirito de equidade, foi que o interventor do Estado do Rio de Janeiro, comte. Ary Parreiras se prontificou a auxiliar tanto quanto possível aos jovens estudantes fluminenses na execução do magno emprehendimento.

Visto como essa iniciativa ecoasse favoravelmente nos meios officiaes, cumpre continuar nessa obra de congraçamento universitário, preparando a juventude e estimulando-a nos estudos, para que as novas gerações se tornem condignos filhos da pátria estremecida e mais tarde lhe saibam guiar os gloriosos destinos. Comprehenda, pois, a mocidade o alto alcance do papel que representa no Brasil.

Geraldo Bezerra de Menezes.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Antimanual de economia

por Bernard Maris, 2004.

INTRODUÇÃO: é preciso rir dos economistas?

"Nós começamos a rir quando lembramo-nos das previsões dos economistas em 1914: a guerra não dura alguns meses, os Estados não tem recursos para mais tempo"
Paul Léautaud, Jornal, 27/01/1932

Devemos rir? Oh não! Eles são muito sérios! Tão sérios que "a economia, eu não a compreendo", admitido pela maioria das pessoas. "Eu não compreendo nada", frase que ouvimos constantemente quando confrontados a um problema econômico? Seguido imediatamente por: "de fato, a bolsa de ações... você acha que vai continuar a cair?"

Bem, vamos procurar compreender.

Que a economia seja muito complicada parece uma garantia de seriedade. E se os economistas se escondem atrás de um jargão? De que eles estão falando justamente? Os físicos debatem, entre outros, sobre a queda dos corpos e da expansão do universo, os químicos dos explosivos, os biólogos das mutações genéticas, dos OGM que eles fabricam, da clonagem e da aids... Mas e os economistas? Eles são tão diferentes dos sociólogos, dos psicólogos, dos filósofos? "E como, então!", exclamam, argumentando com os novos bairros da nobreza da sua disciplina, santificada por um prêmio Nobel. Na verdade, esse prêmio é oferecido pelo banco da Suécia em homenagem a Alfred Nobel e não é um prêmio verdadeiro, concedido pela Fundação Nobel. Mas isso não muda nada! Eles tem o Nobel (1). Os economistas - professores da universidade ou do Collège de France, os especialistas, analistas, os jornalistas econômicos que fazem suplementos econômicos - gostariam muito parecer com os físicos. Eles são verdadeiros sábios? Em todo caso, tratam-se de homens importantes, podemos perceber no momento das discussões sobre orçamento, de leis sobre o prolongamento do trabalho da população ativa ou redução dos impostos para alguns, sobre as eleições, sobre as greves, sobre as crises. Eles são mesmos cada vez mais influentes, se julgarmos pela explosão de suplementos econômicos. Mesmo um semanário como Charlie Hebdo tem uma página econômica.

(1) Mas é verdade que não existe qualquer prêmio Nobel em matemática, devido às obscuras razões de ciúme ou adultério, Alfred Nobel detestando um certo matemático celébre. 

Download do livro pelo site: http://digamo.free.fr/maris13.pdf, em 07 de janeiro de 2016, tradução livre.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Os 3 "s" da Petrobrás

Da crise, a oportunidade:
venderam o pré-sal 
como bilhete premiado,
vã(n)glória da riqueza
   - (s)em trabalho.

Em sociedade hodierna, 
com o petróleo seremos,
no máximo, um Iraque,
vã(n)glória da riqueza
 - (s)em guerra.

Apoiando uma nação
na venda do seu solo, minérios,
água e animais
absteremos do Bras
em detrimento do Petro
vã(n)glória da riqueza
 - (s)em natureza.



Rodolfo Lobato
2015

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Os leões e os medos

“Aqueles leões não emergiram do mato. Eles nasceram do último conflito armado. Repetia-se, agora, a mesma desarrumação de todas as guerras: as pessoas tornaram-se animais e os animais tornaram-se gente. Durante as batalhas, cadáveres foram deixados no campo, nas estradas. Os leões comeram-nos. Naquele preciso momento, os bichos quebraram o tabu: começaram a olhar as pessoas como presas. O cego, enfim, encerrou o longo discurso:

- Já não somos donos, nós os homens. Agora, eles mandam no nosso medo.

Depois discorreu com eloquência e sem interrupção:

- Aconteceu o mesmo no tempo colonial. Os leões fazem-me lembrar dos soldados do exército português. Esses portugueses tanto foram imaginados por nós que se tornaram poderosos. Os portugueses não tinham força para nos vencer. Por isso, fizeram com que as suas vítimas se matassem a si mesmas. E nós, pretos, aprendemos a nos odiar a nós mesmos.

O velho falava como se discursasse, pleno de certeza. Naquele momento, ele era um soldado. Uma imaginária farda cingia-lhe a alma.”


Mia Couto, em "A confissão da leoa"

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Uma sexta-feira 13 de 2015

Lá estava o velho Francisco assistindo o Jornal Nacional quando Willian Bonner, com ar tenso, diz que os ataques terroristas em Paris foram um crime contra a civilização: "Os valores da Democracia e da Liberdade foram ameaçados" - reforça o jornalista. Nesse momento, o velho professor de português e filosofia da cidade de Mariana (MG) corre imediatamente até uma livraria e compra um livro. Esse livro é embrulhado numa sacola plástica contra a lama, a água e o tempo, e é guardado em uma caixa para ser entregue através do seu filho. Com o seguinte bilhete escrito com os dedos tremidos: "Filho, estou no final da minha vida,  entregue esse livro para o meu neto que vai nascer. Isso para que ele saiba que entre nós, há algum tempo, também tínhamos na civilização a Fraternidade".

domingo, 18 de outubro de 2015

Chopin

Confuso e rápido
Loucura da pressa
Embriagado fico
Numa felicidade cega

Vejo o fluxo do rio que passa
E de todos que somos, essa massa,
Agarramos, amamos o que se vai

Tristeza, melancolia futura
De um passado que é
Mais do que um instante qualquer...
Desenho, retrato ou pintura.

De repente o movimento lento, que ira!
Não sei pra onde olhar
Mas como numa mágica
Surge do nada uma trilha.

De pontos sozinhos
Compostos em harmonia
Saem o voltam seguidos
De grande sinfonia.

Rodolfo Lobato, 2003

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Diante da Lei

Franz Kafka

 Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.

- É possível - diz o porteiro. - Mas agora não.
 Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.

 O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:

- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.

 Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.  Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:

- O que é que você ainda quer saber? - pergunta o porteiro. - Você é insaciável.
- Todos aspiram à lei - diz o homem. - Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
 O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só para você. Agora eu vou embora e fecho-a.

domingo, 23 de agosto de 2015

A alimentação em Utopia

“Os campos são tão bem repartidos entre as cidades que cada uma tem pelo menos doze milhas de terras a cultivar a seu redor, às vezes mais, se a distância é maior entre ela e a vizinha.” Página 69

“Cada casa tem duas portas, a da frente dando para a rua, a de trás para o jardim. Elas se abrem a um toque de mão, e se fecham do mesmo modo, deixando entrar quem quiser. Ali não há nada que constitua um domínio privado. Com efeito, essas casas mudam de moradores, por sorteio, a cada dez anos. Os utopianos conservam admiravelmente seus jardins, onde cultivam videiras, frutas, legumes e flores...” Página 73

“Uma única atividade é comum a todos, homens e mulheres: a agricultura, que ninguém pode ignorar. Todos aprendem desde a infância, por um ensinamento dado na escola e pela prática, nos campos vizinhos à cidade, aonde os escolares são levados à maneira de recreação. Eles não se limitam a observar; também trabalham, o que para eles é uma boa ginástica.” Página 75

“Aos mercados que acabo de mencionar somam-se centros de abastecimento para onde são levados legumes, futas, pão e também peixes, e todas as partes comestíveis das aves domésticas e dos quadrúpedes. Esses mercados situam-se fora da aglomeração urbana, em locais apropriados onde a podridão e a sujeira podem ser lavadas em agua corrente. É dali que são trazidos os animais mortos e limpos pelas mãos de escravos, pois os utopianos não admitem que seus cidadãos se habituem a esquartejar animais, temendo que nessa tarefa percam aos poucos as qualidades do coração próprias da humanidade. Tampouco toleram que seja levado para a cidade algo impuro ou sujo, ou cuja putrefação envenene o ar e provoque doenças.” Páginas 84-5

“Nas horas determinadas para o almoço e o jantar, todo um grupo de famílias, avisadas por um toque de clarim, se reúne nesses salões. Apenas não atendem a esse chamado os que estão acamados nos hospitais ou em suas casas. [...] Com efeito, embora haja permissão de comer em casa, isso não é feito de bom grado, pois é algo bastante malvisto. E considera-se absurdo preparar com dificuldade uma refeição menos boa quando uma outra, excelente e abundante, está à disposição num salão próximo.” Página 86

“Nesse refeitório, escravos realizam as tarefas mais sujas e fatigantes. A cozinha, o preparo dos alimentos e a ordem da refeição são incumbência exclusiva de mulheres, cada família enviando de cada vez as suas. Três mesas são preparadas, ou mais, conforme o número dos comensais. Os homens ficam ao longo da parede, as mulheres do lado exterior. Se elas forem acometidas de um mal-estar súbito, o que acontece frequentemente durante a gravidez, podem assim levantar-se sem incomodar ninguém e ir juntar-se às amas de leite.” Página 86

“As duas refeições começam por uma leitura moral, breve, para não cansar. A seguir, os mais velhos dão início a conversações decentes que não deixam de ser alegres, sem ocuparem toda a refeição com intermináveis monólogos; eles escutam inclusive os jovens e os incitam propositalmente a falar, a fim de conhecerem o caráter e a inteligência de cada um, graças à liberdade que uma refeição permite.” Página 88

“O almoço é bastante curto, o jantar prolonga-se um pouco mais, pois o primeiro é seguido de um período de trabalho; o segundo conduz apenas ao sono e ao repouso da noite, que eles julgam a melhor maneira de favorecer uma boa digestão. Nenhuma refeição transcorre sem música, e a sobremesa jamais é privada de guloseimas. Perfumes são queimados e espalhados no ar, nada se negligenciando do que possa agradar os comensais. Eles tendem a pensar que nenhum prazer é repreensível, contanto que não cause aborrecimento a ninguém.” Página 88

“Eis como se vive na cidade. Mas no campo, onde as habitações são muito disseminadas, come-se em casa. Nada falta ao abastecimento de uma família rural, pois são elas que fornecem tudo de que se alimentam os citadinos.” Página 88

“...eles garantem seu próprio abastecimento, que só consideram seguro após terem calculado as necessidades de dois anos, levando em conta a incerteza da próxima colheita. Feito isso, exportam para o estrangeiro uma grande parte de seus excedentes: cereais, mel, lã, madeira, tecidos escarlate e púrpura, peles, cera, banha, couro e também gado. Um sétimo de todas essas mercadorias é dada de presente aos pobres do país adquirente; o resto é vendido a um preço razoável. O comércio lhes permite fazer entrar em Utopia os produtos que faltam – pouco coisa além do ferro – e, além disso, uma grande quantidade de ouro e prata.” Página 90

“Eles próprios não fazem uso algum da moeda. Conservam-na para um acontecimento que pode sobrevir, mas que pode também jamais ocorrer. Esse ouro e essa prata eles as conservam sem atribuir-lhes mais valor que o que comporta sua natureza própria. E quem não percebe que esta é bem inferior à do ferro, sem o qual os mortais não poderiam viver, como também não poderiam passar sem a água e o fogo, enquanto, ao contrário, a natureza não associou ao ouro e à prata nenhuma propriedade que nos seria preciosa, se a tolice dos homens não valorizasse o que é raro? A natureza, como a mais generosa das mães, pôs a nosso alcance imediato o que ela nos deu de melhor, o ar, a água, a própria terra; ao mesmo tempo, afasta de nós as coisas vãs e inúteis.”  Página 92

A UTOPIA de TOMÁS MORUS
Porto Alegre: L&PM, 2011

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Agricultura e Regimes Alimentares

AGRICULTURE AND THE STATE SYSTEM
The rise and decline of national agricultures, 1870 to the present

Harriet Friedmann and Philip McMichael
Sociologia Ruralis 1989, Vol XXIX-2

Artigo que pretende investigar o papel da agricultura no desenvolvimento do capitalismo mundial:
"At present, when food security and foreign debt command policy attention, it is useful to examine the assumptions behind attempts to build up national agricultures in Third World countries." p93

"Two basic processes are at work: the development of a system of independent, liberal national states, and the industrialization of agriculture and food." p94

"We conceptualize nineteenth-century nation-state formation as a systemic process, in which settler states played a key role. Exporting temperate crops competitive with European agriculture, the independent settler states: (i) provisioned the growing European proletariat with wage-foods, and (ii) became the basis of a new type of trade within a new international order, alongside the colonial relation whereby metropoles directly administered (complementary) tropical export agriculture. The new international order encouraged a movement towards not only comparative advantage, as an apparently automatic mechanism of specialization. [...] The US exemplified the national economy balanced between agriculture and industry." p94

"We conclude that the growing power of capital to organize and reorganize agriculture undercuts state policies directing agriculture to national ends, such as food security, articulated development and the preservation of rural/peasant communities." p95

"We organize our argument around the concept of the food regime [...]. It allows us to characterize late nineteenth century capitalism as an extensive form constructing capitalist production relations through the quantitative growth of wage labour; and mid-twentieth century capitalism as an intensive form reconstructing consumption relations as part of the process of accumulation [...]. In the first food regime settler agricultural exports produced by family labour underwrote the developing wage-relation and attendant growth of food markets. [...] In the second food regime, this relationship was extend to the post-colonial world. [...] As a component of global political-economic dynamics, each food regime embodied two opposing movements - in the first, culmination of the colonial organization of precapitalist regions and the rise of the nation-state system; in the second, completion of the state system through decolonization and its simultaneous weakening through the transnational restructuring of agricultural sectors by agro-food capitals." p 95

"The link between the two food regimes is the US..." p 95

THE FIRST FOOD REGIME

"The first food regime was centred on European imports of wheat and meat from the settler states between 1870 and 1914. In retour, settler states imported European manufactured goods, labour, and capital..." p 95-6

"The first food regime was, therefore, a key to the creation of a system of national economies governed by independent states." p96

THE CULMINATION OF COLONIALISM

"The culmination of colonialism came hard on the heels of the opposite movement, in wich settler colonies - Canada, Australia, New Zealand - gained political independence and with the capacity to enact tariffs and other controls over their political-economic frontiers, indeed to raise capital to expand those frontiers." p97

"Late nineteenth century colonialism expand the supply of tropical products to metropolitan economies." p97

"In short, late nineteenth-century colonialism, which reproduced direct metropolitan political control, simultaneously expressed new dynamics of the emerging nation-state system. The very scale of world partition demonstrated the competitive capacities of a reconstituted industrial state system with greater military and financial powers. In this way the opposing movements of the nineteenth century - the culmination of colonialism, and the emergence of the nation-state system - mutually conditioned one another." p98

THE RISE OF THE NATION-STATE SYSTEM

"European imports of wheat and meat from the settler states, and exports of capital and people to organize production, were the core of the first food regime, geared to industrial capitalism. The settler family farm, which represented a new form of specialized commercial agriculture (Friedmann 1978) was itself industrial. Settler agriculture provided demand for emerging national industries in the settler states [...]. This was a new form of capitalist development: whereas the European metropoles had fostered proto-industry and colonial trade through mercantalist policies, the settler states at once defined national territories and established fully commercial - and integrated - sectors of production." p 100

"This reconstitution of the world economy as an international economy altered the content, if not the form, of the colonial division of labour and anticipated its long-term decline." p 100

"The major link in the reconstitution of the world economy was between goods - and regions - of wage labour and settler agriculture. Despite different weights of industry and agriculture, of domestic and export production, all major national economies now produced (or could produce) the same products. Wage labour expanded through the cheap wagefoods and raw materials flowing between nations within a unified, price-regulated world market. This facilitated the relocation of commercial agriculture from Europe to extensive settler frontiers." p101

"The resulting competition of cheaper grains from settler regions induced an agriculture crisis in Europe, particularly in large-scale grain [...] economic nationalism expressed world market forces. [...] Across the oceans, settler states introduced direct regulation of agricultural markets to help farmers cope with the collapse of international trade. Price supports and other market controls would eventually be adopted in both Europe and the new nations formed through decolonization." p 101-2

Três novas relações entre a agricultura e a indústria:

"1. Complementary products based on differences in climate and social organization gave way to competitive products traded according to Ricardian comparative advantage. [...] This anchored the first international division of labour and underpinned a new phase of industrial development." p 102

"2. Market links to industry clearly demarcated agriculture as a capitalist economic sector. [...] Chemical and mechanical inputs increasingly replaced the biological inputs produced internal to the farm in mixed farming. [...] Yet this agriculture was industrial mainly in its external links, purchasing inputs from industry and providing raw materials to industries doing minimal processing (flour mills, meat preservation). The clear boundaries between agriculture and industry would be undercut in the second food regime." p 102

"3. The complementarity between commercial sectors of industry and agriculture, wich originated in international trade and remained dependent on it, was paradoxically internalized within nationally organized economies. The resulting home market for domestic industrial capital - the agro-industrial complex - represented in social thought the model of national economy." pg 102

THE SECOND FOOD REGIME

"The second food regime is a rather more complex and contradictory set of relations of production and consumption rooted in unusually strong state protection and the organization of the world economy under US hegemony. [...] The present anarchy in world markets reflects a fundamental transformation of old patterns of international specialization. As in the earlier regime, there have been two opposing movements of the state system and international division of labour:

1. Extension of the state system to former colonies. Decolonization [...] destroyed the political basis for colonial specialization within protected trading blocs centered on the metropole. Instead, integration into the second food regime proceeded on two completely new fronts: a) importation of wheat from the old settler colonies, especially the US, at the expense of domestic food production, and b) decline of markets for tropical exports, notably sugar and vegetable oils, through import substitution by advanced capitalist countries.

2. Transnational restructuring of agricultural sectors by agro-food capitals. [...] Agriculture became an industrial sector as food increasingly shifted from final use to manufactured (even durable) products." pg 103

EXTENSION OF THE STATE SYSTEM

"The first movement, decolonization, broke up the colonial trading blocs, with their politically constructed specialization, and completed the state system. Yet as new states were created, their first economic goal, like that of their earliest predecessors in Europe, was to establish a national economy based on commodity relations as an effective base for political control and taxation." p 104

"...only the US had the ability to act on its interest in selling wheat in the Third World. Its economic power was expressed through the dollar as world currancy. This underpinned the main mechanism for redirecting wheat trade towards Third World countries despite their lack of dollars, concessional sales in American-held non-convertible national currencies..." p104

"Thus proletarianization in the Third World far from depending on national food markets occurred through imported American wheat, at the expense of domestic agricultural production. Cheap American grain led to the displacement rather than the commodification of traditional foods..." p 104

TRANSNATIONAL RESTRUCTURING OF SECTORS

"The completion of the state system occurred simultaneously with the transnational restructuring of agricultural sectors. The sectoral boundaries started to blur through i) intensification of agricultural specialization [...] and integration of specific crops and livestock into agro-food chains dominated at both ends by increasingly large industrial capitals; and ii) a shift in agricultural products from final use to industrual inputs fo manufactured foods." p 105

"Restructuring mainly occurred through two large complexes: the intensive meat complex and the durable foods complex." p 105

“The durable foods complex changed food from a local...” p106

“Like the automobile, meat was a key product in the mass production and consumption of standardized products that provided the central dynamic of post-war capitalismo in advanced capitalista economies; and like petroleum [...] soy was a critical input to mass production.” P 106

“With the Common Agricultural Policy, France, like the resto f Europe, was opened to American soy. The US accepted European protection against wheat in return for excluding soy from duties in successive GATT rounds [...]. American corporations, already well established domestically during the War, established subsidiaries with processing plants in Europe. The corporations of the meat/soy/maize complex later extended the transnational integration of the most dynamic agricultural production to certain peripheral economies.” P 107

“Turning to the durable foods complex, the shift from farm produce to manufactured foods in the centre during the 1950s and 1960s reflected the larger trend to mass consumption and mass production of standardized products. Consumption of frozen foods in the US, for instance, more than tripled between 1950 and 1975 [...] For farmers all over the world this shift to manufactured foods meant a transformation of markets from either local markets or na anonymous mass of distant consumers, to na oligopolistic relation to corporate buyers of agricultural raw materials.” P 108

“The key to understanding this renationalization of domestic agriculture in the core countries is substitution of tropical sugar and oils by generic sweeteners and fats. US per capita consumption of sugar actually declined by one-third between 1970 and 1983.” P 109

“The key to oils is soya, which integrates the double movement of import substitution [...] and transnational integration of sectors. Soy oil largely displaced other vegetable oils, both temperate and tropical, as a function of its joint production with meal cakes for animal feeds. The shift to soy [...] reflect American power.” P109

“soy was at the centre of the postwar transformation of agriculture, and with it major shifts in the international division of labour. Mosto f the story applies to meat, but its origins lie in the combined properties of processed soybeans as vegetable oil [...] and na excelente source of protein in animal feed. Here the advantage, after considerable manoeuvring, aliance formation, and lobbying by agro-food industries in the 1930’s, created ideal conditions foi soy oil relative to existing oilseeds.” P110

“We have argued that the US modelo f capitalista development constitutes the link between the two regimes that promoted the nation state system, the industrialization of agriculture, and the growing tension between these processes.” P 111

“As the hegemonic power, American capitalismo became the model for post-war theories of development applied to the Third World.” P 111

“The overriding shift is from state to capital as the dominant structuring force.” P112

“The restructuring, not only shifts sectoral balances whithin nations, but also disaggregates large sectors, such as agriculture, into minute divisions and reintegrates each division into a complex web of inputs and outputs to increasingly complex and differentiated food products. Not only is agriculture no longer a coherent sector, but even food is not.” P112


“The food and agriculture componente took the formo f a proposal, defeated at a meeting in Washington in 1947, for a World Food Board that would have given considerable planning and enforcement powers to the Food and Agriculture Organization.” P113

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Centenário do apóstolo da Justiça do Trabalho

Como diria o jurista Edmo Lutterbach, biógrafo de Geraldo Montedônio Bezerra de Menezes (GMBM), já na juventude podíamos identificar um líder em que palavra e pena se direcionaram no objetivo de conciliar “a lei divina na vida da cidade terrena” (Gaudiam et Spes). Fez-se do tempo a prova de que a defesa da Igreja contra os discursos anti-cristãos fosse, hoje, reconhecida para além do catolicismo, como uma defesa da liberdade religiosa. Ou seja, ao defender o cristianismo, GMBM conseguiu defender, também, todas as religiões que estão presentes entre as diferentes expressões do sagrado e que não podem se resumir à "sacralidade" do mercado e do dinheiro. Expressão e síntese do apostolado leigo, do respeito à hierarquia eclesiástica, a moral cristã fez-se visível na grandeza da família, seja através de seus 15 filhos, ou da composição de uma genealogia em que não podemos visualizar apenas a história particular dos Bezerra de Menezes, mas a própria história da formação do Brasil. Apenas contemplando a riqueza de princípios e valores de GMBM faz-se possível compreender o surgimento do apóstolo social, tecendo em compreensão cristã os problemas sociais brasileiros e, principalmente, criando formas à seguridade social e à proteção social dos trabalhadores diante das assimetrias de poder entre o capital e o trabalho. Nesse sentido, a “Doutrina Social e o Direito do Trabalho” são inseparáveis da “A Vida Substancial do Espírito”, tanto quanto a luta pela justiça e defesa dos pobres não pode denegrir a verdade religiosa e a pureza da fé. Esferas e dimensões de uma vida que, ao lado do poeta, do educador em moral e civismo, do historiador e sociólogo, obrigam-nos a tratar seu acervo como um todo, com o risco de não compreender as razões de um jurista ocupar desde o cargo de primeiro presidente do Tribunal Superior Trabalho, da Academia Fluminense de Letras, do Conselho Federal de Cultura, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de integrar a Ordem de Rio Branco, de professor da Universidade Federal Fluminense e, pelo conjunto da sua obra, receber do Papa Paulo VI a Comenda de São Gregório Magno. Em resumo, o autor do Decreto Lei 9.797/46, que deu forma à atual Justiça do Trabalho, e que tem, hoje, seu acervo doado para guarda e proteção perpétua do Tribunal Superior do Trabalho, foi um intelectual singular, o qual podemos tentar interpretá-lo apenas quando o contemplamos como um todo. E, assim, a família com orgulho oferece aos trabalhadores e pesquisadores brasileiros o acervo acumulado por gerações em nome da crença de que é possível sim construirmos um país que seja guiado pelo amor ao próximo.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Artérias Latinas

Triste dia,
Eduardo Galeano morreu.
Não era só um escritor,
era como um avô meu.
Nas tintas,
desencontros, medos,
violência, feridas.
Na América Latina,
encontros, consciências,
esperanças, vidas.
E hoje, em seu barco,
não precisarás de moeda,
Leva a paz, e com ela
- descansará mais.

Divitae enim apud spientem virum in servitute sunt, apud stultum in imperio
Seneca
"as riquezas estão a serviço do sábio, mas comandam o estúpido"


Rodolfo Lobato
Rio de Janeiro, 14 de abril de 2015

terça-feira, 14 de abril de 2015

O PROBLEMA DOS LATIFUNDIOS

Por Oliveira Vianna
Publicado em 10.01.1939*

Tenho sobre minha mesa um memorial, que do Norte me envia o seu autor, aliás anonymo. Nelle são debatidas duas questões da maior actualidade, porque se prendem, sem duvida, ao problema da nossa "marcha para o Oéste": uma é a dos latifundios, que o memoralista condemna; outra, a da exploração collectiva da terra, que concatena e applaude.

Não partilho da crença do autor e de muita gente de que é preciso acabarmos com os latifundios existentes em nosso paiz, nem creio que haja vantagem em realizarmos, á maneira mexicana, uma transformação brusca neste sentido. Na verdade, os latifundios se acabarão por si mesmos; pela acção lenta, mas segura, da lei das successões; pela  força mesma da nossa evolução social; pela elevação progressiva do indice de densidade demographica com o augmento inevitavel e incoercivel da nossa população. Os dados estatisticos, relativos á evolução da pequena propriedade em São Paulo, recentemente publicados, demonstram, aliás, cabalmente, que não passa de lenda a preponderancia do regimen latifundiario em paiz. O mesmo acontece com os dados ultimamente colligidos e divulgados sobre a distribuição da propriedade rural em Pernambuco.

Os latifundios existem, sem duvida; mas, por força mesma das condições geographicas e domographicas em que vive o nosso povo. Nascem da falta de gente - e não da injusta apropriação do solo por uma oligarchia privilegiada e odiosa: entre nós, o latifundiario pede o povoador, o colono; não o repelle.

O movimento contra os latifundios privados, esboçado em nosso meio desde os começos da Revolução de 30, carece de fundamento na nossa realidade; tem um caracter meramente reflexo - de imitação. É uma reproducção do que se está fazendo em outros povos por motivos, aliás, muito differentes dos nossos: ou por necessidade de dar à plebe rural, faminta e espoliada, uma satisfação á sua revolta, como vemos na Europa (v. Perroux - La reforme agraire en Europe, 1935); ou por simples ideologias extremistas, nascidas de antagonismos raciaes, como no Mexico (v. Marchand - L'effort démocratique du Mexico, 1938).

No nosso paiz não temos nada disto: nem ha falta de terras, nem ha antagonismos raciaes. Muito ao contrario disto, é a sombra do nosso velho regimen patriarchal, ainda dominante no interior dos nossos campos e sertões, que a massa inferior da nossa população rural vive, abrigada, assistida, protegida. O Brasil evoluiu e progrediu á sombra das grandes organizações latifundiarias, sob as quaes as classes que trabalham a terra construiram, e continuam a construir, a nossa riqueza rural. Se inconvenientes podem ter havido dessas organizações latifundiarias elles foram eliminados pela acção desintegradora, a que a lei das partilhas tem sujeitado, desde os primeiros seculos, as [PARTE ILEGÍVEL DO JORNAL] É preferivel, pois, deixarmos que a propriedade territorial em nosso paiz continue, sem modificações violentas, a obedecer o rythmo da sua evolução histórica.

Isto não impede que procuremos desenvolver a pequena propriedade. Ella é essencial á constituição de uma classe média rural, lacuna historica da nossa estructura de povo, que tantos reflexos tem tido sobre a nossa vida social e politica, principalmente politica, como deixei demonstrado em Populações Meridionaes. Nada nos impede que a constituamos pelo retalhamento das nossas terras publicas, dos vastos latifundios pertencentes ao Estado; pela desapropriação quando desaproveitadas ou mal aproveitadas, das terras marginaes ás linhas ferroviarias ou vias fluviaes; ou ainda pela desapropriação dos latifundios privados, mesmo fora das zonas marginaes das estradas de ferro e vias fluviais, todas as vezes que se verificar ser mais benefico exploral-os pelo systema da pequena propriedade ou da pequena cultura.

No fundo, o que temos a fazer, se quizermos attender a suggestão do memorial, é distender o campo de applicação das nossas leis de colonização, até agora muito limitado, por assim dizer quasi que restricto ás regiões do sul, de modo a contemplar tambem as vastas regiões desertas ou abandonadas das nossas regiões septentrionaes. Nesta distenção do nosso programma colonizador, bem poderíamos aproveitar a opportunidade para, intensificando a nossa politica de colonização e povoamento, realizar o aproveitamento systematico do elemento nacional, evidentemente um tanto desprezado nesta obra de fixação do homem à terra. Tendo grandes massas de "desplantados" e de "infixos", especialmente nas nossas regiões do Norte, onde o rythmo das seccas desloca massas tão consideraveis de população humana, espalhando-as por todos os recantos do paiz, nada é mais razoavel do que procurarmos aproveitar estes elementos nacionaes, assim dispersos, para a constituição de nucleos coloniaes, á semelhança do que fazemos com os colonos estrangeiros, que aqui abrigamos e amparamos generosamente.

O memorial, que estou comentando, trata tambem de um outro assumpto não menos interessante e que exige algumas considerações. É aquelle em que o autor preconiza a organização destes nucleos coloniaes sobre bases de um regimen cooperativo. Pelo plano do memorial, em vez de dividir-se a terra em lotes, para distribuil-os com os colonos sob um regimen de propriedade individual, os colonos explorariam os terrenos dos nucleos collectivamente e sob um regimen cooperativista. Qualquer coisa que recorda o systema das kolkhoses russas...

Não diz o autor qual a fórma de organização cooperativa que desejaria fosse adoptada. Será a dos famosos "consorcios syndicaes-cooperativistas", creados, não ha muito, pelo Ministerio da Agricultura? ou será o systema das affittanze colletive, adoptados pelos agricultores italianos na exploração de alguns dos seus grandes dominios agricolas?

O que a experiencia tem monstrado, na generalidade dos paizes, é que o systema coóperativo integral não dá grandes resultados. O lavrador, quando é, ao mesmo tempo, pequeno proprietario, quer certa autonomia na direcção do seu trabalho e na disposição dos productos delle - e o regimen cooperativo puro não se mostra muito adequado a satisfazer esta necessidade de autonomia e independencia, propria ao pequenos proprietario agricola. Como observa Gide, os pequenos proprietarios "não se sentirão muito dispostos a pôr em commum nem os seus cavallos, os seus bois, as suas charruas, as suas machinas agricolas e os seus rebanhos e adubos, nem os seus braços e seus capitaes, para um exploração, cujos lucros se deveriam partilhar proporcionalmente á superficie das suas terras, ou ao tamanho dos seus rebanhos, ou ao vulto dos seus capitaes".

Nos nossos nucleos agricolas, de typo cooperativista, como o suggerido pelo memorial, esta incompatibilidade do regimen cooperativo com a psychologia especifica do pequeno proprietario seria tanto mais accentuada quanto maior fosse o numero de elementos nacionaes que entrassem na formação destes nucleos. O pequeno proprietario brasileiro é, mais do que nenhum outro, individualista, cioso da sua autonomia; certamente, repugnaria á sua indole esta subordinação da sua actividade, do seu trabalho e dos seus lucros a um regimen de partilha cooperativa. Mesmo os colonos europeus do Occidente - taes como os allemães, os portuguezes, os hespanhoes, etc. - não acceitariam facilmente um regimen de communidade cooperativa integral. Só os colonos de raça slava, como os russos, os polacos, os tchecos, os yugoslavos, os balkanicos em geral, só estes se subordinariam a um regimen de cooperação rigorosa - e isto porque, dada a sua formação social, não poderiam deixar de acceitar um regimen por elles praticado, tradicionalmente, nos seus meios de origem.

É verdade que se poderia citar, em contrario, o exemplo dos agricultores italianos, isto é, o que os italianos estão fazendo na sua propria terra com as suas explorações agricolas de typo collectivo. Mas, a verdade é que os contadini italianos não differem, neste ponto, dos seus irmãos do occidente europeu: apezar de terem sido os grandes realizadores de um dos mais bellos systemas de cooperativismo do mundo - o das affittanze collettive - não conseguiram, comtudo, ainda extrair da sua iniciativa os grandes frutos, que esperavam. O cooperativismo das affitanze não lhes tem sabido muito bem á sua indole individualista: é pelo menos o que nos diz Ludovico Occhini, estudando os resultados da reforma agraria operada pelo regimen fascista. Para elle, o cooperativismo agrario só se tem, realmente, revelado fecundo e efficiente ali sob a fórma de cooperativas de venda, de acquisições de machinas, ou de credito.

* Pedaço de jornal recortado, pertencente ao acervo do Ministro Geraldo Bezerra de Menezes. No mesmo jornal continha da data da publicação anotada de 10.01.1939.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A mão e o vento por Pessoa


 FOI UM MOMENTO

Fernando Pessoa

Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Concordâncias irracionais

"Numa 'passagem de uma enciclopédia imaginária chinesa', Jorge Luís Borges procura evocar o desvario que tal tentativa deve produzir. Diz que os animais estão divididos nas seguintes categorias: 'a) os pertencentes ao imperador, b) os embalsamados, c) os domesticados, d) os leitõezinhos, e) as sereias, f) os mitológicos, g) os cachorros vadios, h) os incluídos na presente classificação, i) os inumeráveis, k) os pintados com um finíssimo pincel de pelo de camelo, l) et cetera, m) os que recentemente quebraram o jugo, n) os que de longe parecem com moscas". Semelhante taxeonomia jamais terá vez a não ser que alguém a julgue apropriada para seus intentos [...] essa taxeonomia dos animais deve ter sentido, da mesma forma que a taxeonomia dos objetivos educacionais tem sentido para os autores científicos."  117

"Este trecho de Borges é fascinante, pois evoca a lógica da concordância irracional que tornou as burocracias de Kafka e Koestler tão sinistras mas tão representativas de nossos dias. 117-118

"triunfou na cultura americana um compromisso com a terapia, a tal ponto que os professores começaram a ser vistos como terapeutas cujos serviços eram necessários a todos... os professores-terapeutas vão mais longe e propõem como próximo passo um tratamento educacional que dure a vida toda." 118

"Uma revolução educacional depende de uma dupla inversão: nova orientação das pesquisas e nova compreensão do estilo educacional de uma cultura emergente." 120

"O ponto cego da pesquisa educacional reflete o preconceito cultural de uma sociedade em que o crescimento tecnológico foi confundido com controle tecnocrático. [...] A liberdade fica reduzida a uma escolha entre mercadorias empacotadas." 120

Ivan Illich, Sociedade Sem Escolas


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

OS AFRO-BRASILEIROS





Por Darcy Ribeiro, em "O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil"


"Os negros do Brasil foram trazidos principalmente da costa ocidental africana. Arthur Ramos [...], prosseguindo os estudos de Nina Rodrigues [...], distingue, quanto aos tipos culturais, três grandes grupos. O primeiro, das culturas sudanesas, é representado, principalmente, pelos grupos Yoruba - chamados nagô -, pelos Dahomey - designados geralmente como gegê - e pelos Fanti-Ashanti - conhecidos como minas - além de muitos representantes de grupos menores de Gâmbia, Serra Leoa, Costa Malagueta e Costa do Marfim. O segundo grupo trouxe ao Brasil culturas africanas islamizadas, principalmente os Peuhl, os Mandinga e os Haussa, do Norte da Nigéria, identificados na Bahia como negros malé e no Rio de Janeiro como negros alufá. O terceiro grupo cultural africano era integrado por tribos Bantu, do grupo congo-angolês, provenientes da área hoje compreendida pela Angola e a 'Contra Costa', que corresponde ao atual território de Moçambique." p 102

"Os negros do Brasil, trazidos principalmente da costa ocidental da África, foram capturados meio ao acaso nas centenas de povos tribais que falavam dialetos e línguas não intelegíveis uns aos outros. A África era, então, como ainda hoje o é, em larga medida, uma imensa Babel de línguas. [...] A própria religião, que hoje, após ser trabalhada por gerações e gerações, constituiu-se uma expressão da consciência negra, em lugar de unificá-los, então, os desunia." p102-103

"O espantoso é que os índios como os pretos, postos nesse engenho deculturativo, conseguiam permanecer humanos. Só o conseguem, porém, mediante um esforço inaudito de autorreconstrução no fluxo do seu processo de desfazimento. Não têm outra saída, entretanto, uma vez que da condição de escravo só se sai pela porta da morte ou da fuga. Portas estreitas, pelas quais, entretanto, muitos índios e muitos negros saíram; seja pela fuga voluntarista do suicídio, que era muito frequente, ou da fuga, mais frequente ainda, que era tão temerária porque quase sempre resultava mortal. Todo negro alentava no peito uma ilusão de fuga, era suficientemente audaz para, tendo uma oportunidade, fugir, sendo por isso supervigiado durante seus sete a dez anos de vida ativa no trabalho. Seu destino era morrer de estafa, que era sua morte natural. Uma vez desgastado, podia até ser alforriado por imprestável, para que o senhor não tivesse que alimentar um negro inútil." p 106

"Sem amor de ninguém, sem família, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém - seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos -, maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, viva a sua rotina. Esta era sofrer todo o dia o castigo diário das chicotadas soltas, para trabalhar atento e tenso. Semanalmente vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga, e, quando chamava atenção, recaía sobre ele um castigo exemplar, na forma de mutilações de dedos, do furo de seios, de queimaduras com tição, de ter todos os dentes quebrados criteriosamente, ou dos açoites no pelourinho, sob trezentas chicotadas de uma vez, para matar, ou cinquenta chicotadas diárias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, viver peado com uma bola de ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de uma vez só, jogado para arder como um graveto oleoso." p 107-8

"Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria." p 108

"A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, serviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária." p 108


- São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ENTRE PRÁTICAS E RECURSOS TERAPÊUTICOS



SYLVIE FAINZANG[1].  ENTRE PRÁTICAS E RECURSOS TERAPÊUTICOS: As problemáticas de um itinerário de pesquisa. Antropolítica: Revista Contemporânea de Antropologia e Ciência Política. Número 15. Niterói, 2o semestre 2003.



-                “Assim sendo, pretendo mostrar, nesta exposição, como diferentes pesquisas, dotadas de objetos, situações de campo e problemáticas variadas, isto é, que se iniciam de forma distinta, podem ser perpassadas por questões convergentes e até mesmo permanentes.” P20
-                     “Meu interesse particular pelo estudo dos sistemas simbólicos que estão no fundamentos das práticas sociais nasceu precisamente da leitura deste livro de Marshall Sahlins (1980), [...] para todos [...] que se interessam pelas dimensões culturais que organizam os comportamentos humanos.”

A gestão intelectual e prática da doença em uma sociedade oeste-africana

-                     “Iniciei minha pesquisa na África junto aos bisa, [...] (hoje burkina faso) [...] centrei minhas pesquisas sobre as representações e as práticas relativas à doença [...] me interroguei particularmente sobre os meios pelos quais a sociedade se encontra dotada, em termos de gestão prática e intelectual da doença, para assegurar controle sobre os indivíduos. [...] Um espaço importante foi reservado aos estudos dos modelos explicativos da doença e dos acontecimentos em geral, aos quais os processos de acusação que eles particularmente suscitam e as práticas terapêuticas estavam estreitamente articulados.” P 20-1
-                     “A percepção social do evento-doença, que fundamenta a consulta adivinhatória, conduz o adivinho a relacionar os fatos e gestos dos consultantes e experiências passadas ou à projeção do futuro e, assim, elaborar relações causais entre fenômenos muitos diversos entre si.” Freqüentemente a doença é concebida como sanção infligida por poderes sobrenaturais, devido à infração às regras sociais, transgressão de tabus ou exprime a percepção de um conflito entre indivíduos ou entre grupos. Woso, príncipe transcendente ao universo. “Pensar a doença é tentar ordená-la sob encadeamento temporal e a lógica de eventos múltiplos. É legitimar a obediência a comportamentos sociais específicos, situados sob pontos diversos da seqüência causal, suscetíveis de lhe modificar o curso. [...] a instituição adivinhatória assume um papel de controle social.” P 21-2
-                     “A diferença é que uns (os comportamentalistas) o produzem, enquanto outros (os adivinhos) nada mais fazem do que interpretar os eventos e designá-los enquanto tais. Assim, é a gestão intelectual do evento que determina as práticas sociais.”
-                     “se levarmos em consideração precisamente a incidência do uso da categoria Woso sobre as práticas sociais, perceberemos, por um lado, que certas representações da doença são totalmente afuncionais e, por outro, que os indivíduos recorrem, às vezes, à categoria Woso para escapar à análise advinhatória, exprimindo, assim, uma resistência ao controle social.” P 22

A interpretação da doença em um distrito da região parisiense

-                     “Assim, no Ocidente, como na África, a interpretação que os sujeitos fazem da doença e os motivos que permeiam os recursos terapêuticos colocam em jogo os sistemas de pensamento e representações do real, extrapolando enormemente o domínio estritamente médico. O antropólogo deve então se dedicar a estudar e decodificar estes aspectos.” P 23
-                     “procurei colocar em relevo, a partir do que o estudo da antropologia da doença pode nos trazer sobre estas sociedades, quais são os pontos comuns nos seus respectivos sistemas simbólicos. [...] E que, para além das diversidades culturais, podemos identificar aspectos universais no que diz respeito à relação com o mal, com a doença e com os infortúnios em geral. O objetivo desta pesquisa era perceber como as representações da doença se integram a outros sistemas simbólicos; revelar as lógicas que conduzem aos recursos terapêuticos, em particular, estudar a articulação e a coerência entre representações da doença e estratégias terapêuticas; e perceber como estas últimas se articulam, por sua vez, com a especificidade cultural dos diferentes grupos.” P 23-4
-                     “Um dos grandes eixos da minha pesquisa consistiu, portanto, em enumerar e trazer à tona os diferentes modelos explicativos da doença. Para tanto, dei atenção particular aos processos de acusação desencadeados pela sua aparição; e aos sistemas de pensamento que os fazem surgir. Enfim, de maneira mais ampla, tentei entender suas condições de existência.”
-                     “Os resultados da pesquisa me permitiram constatar que o discurso social sobre a doença pode ser visto como uma linguagem de tensões sociais, fornecendo o meio de expressão da tensão entre os indivíduos e entre os grupos. [...] Ele é revelador de conflitos interpessoais e sociais. Conseqüentemente, dei-me conta de que, nas sociedades em que a bruxaria tem relevância (seja na África ou na França), falar de doença é anunciar a relação do doente com os outros [...] O discurso sobre a doença funciona, portanto, como uma grade de leitura de relações sociais e se exprime segundo modalidades específicas, de acordo com o pertencimento cultural dos sujeitos.” P 24-5
-                     “O conjunto de estudos de casos realizados nos diferentes meios culturais estudados me conduziu a reconhecer quatro modelos de acusação: 1. a auto-acusação; 2. a acusação de um outro próximo (ou familiar); 3. a acusação de um outro distante (ou estranho); 4. a acusação da ‘sociedade’.”
-                     “Assim, o estuda da causalidade nas sociedades de linhagem revela a referência massiva ao modelo de auto-acusação e ao modelo de acusação do Outro. Em contrapartida, não se encontram nos discursos produzidos pelas sociedades de linhagem os modelos de acusação da sociedade, tais como eles são formulados pelas sociedades ocidentais. [...] os discursos interpretativos africanos revelam uma resistência à reprodução almejada pela etiologia social, eles jamais colocam em questão os valores partilhados. Eles tendem somente a promover estratégias pessoais, que não visam ser denunciadoras da ordem social. Distinguem-se, assim, dois modelos de causalidade: uma causalidade subversiva e uma reprodutiva.”
-                     “Mas ela [minha perspectiva] procurou igualmente se distinguir daquela elaborada por antropólogos, para os quais não existe diferença entre experiência científica e experiência mágica. Meu propósito foi, ao contrário, mostrar a profunda analogia entre os modos de pensamento tradicionais africanos e os modelos teóricos da sociedade ocidental.” P 25-6
-                     “A observação revela que a interpretação que os sujeitos têm da doença possui uma incidência sobre os recursos terapêuticos, assim como sobre os seus comportamentos quotidianos.”
-                     “Como o discurso sobre a doença corresponde a uma grande leitura das relações, que o sujeito estabelece com os seus próximos ou com outros grupos sociais, a significação adotada não pode ser imediatamente abandonada. Ignorá-la é abandonar a acusação pela qual as relações se estabelecem. É negar a validade do olhar que o sujeito incorpora sobre a sua inscrição social. (FAINZANG, 1988, 2000).”
-                     “Em cada um destes casos, a conduta terapêutica do doente é função da lógica interpretativa à qual ele adere. A propensão do doente a dar um sentido à sua doença e a lhe atribuir uma causa leva-o a procurar a medicina que lhe oferecerá – pelo diagnóstico que ela elabora – o máximo de coerência com sua própria percepção da doença. Em decorrência, a prescrição que possa ser considerada como a mais adequada para responder eficazmente ao seu caso particular.”p 27

Sexualidade e reprodução no meio africano imigrante

-                     “o Ministério dos Direitos da Mulher me solicitou a realização de uma pesquisa sobre as mutilações sexuais no meio africano imigrante. Assim, entrei em contato com mulheres originárias do Mali e do Senegal com o objetivo de discutir com elas as práticas relativas à clitoridectomia, [...] estas mutilações revelavam o desejo de inscrever as relações sociais sobre os corpos.”
-                     “Os materiais coletados revelam, de fato, o que o ‘trabalho’ realizado sobre os corpos não visa somente confirmar a diferença biológica entre os sexos, mas também corrigir o sexo biológico de maneira a tornar possível, para a pessoa socializada como feminina ou masculina, o estatuto que lhe é atribuído. E, nessa medida, reduzir ou suprimir o que, na mulher, é concebido como equivalente do sexo masculino, criando então condições (fisiológicas) de dominação (social) do homem sobre a mulher.” Relação entre excisão e circuncisão. P 28

Representações e gestão do alcoolismo em um movimento de antigos bebedores

-                     “Assim que terminei minhas pesquisas sobre a interpretação da doença em Ville-du-Bois, fui levada a dar um certo direcionamento ao objeto de estudo, passando da doença em geral para a ‘doença alcoólica’ em particular, e, mais precisamente, a um movimento de antigos bebedores: Vie Libre.” P 29
-                     “Assim, segui a questão da interpretação da doença, estudando os modelos explicativos do alcoolismo, conforme são elaborados no seio do movimento dos antigos bebedores Vie Libre. Enquanto para a maioria dos etnólogos tomar o alcoolismo como objeto é levar em consideração o alcoolismo como um modo de vida, ou o traço de uma cultura, eu, ao contrário, tratei de restituir o ponto de vista êmico de uma associação de antigos bebedores, retendo a equivalência ‘alcoolismo-doença’.” P 30
-                     “Conduzi, desta forma, uma reflexão sobre a teoria da causalidade elaborada a propósito do alcoolismo por este movimento. Todavia, os discursos explicativos do alcoolismo não se reduzem ao discurso doutrinal. [...] A questão da relação que o indivíduo mantém com a doença se integra inevitavelmente à problemática da relação frente ao Outro. [...] Desse modo, também procurei compreender o que representa e simboliza o álcool nesta perspectiva. Trata-se de saber se a eficácia de adesão do sujeito a este tipo de associação é tributária da adoção de certos esquemas de causalidade e, eventualmente, de uma reconversão no plano da percepção das causas do alcoolismo e da imputação de responsabilidades, questão que se relaciona com a dos sistemas interpretativos da doença. [...] Assim, a pesquisa permitiu observar a imbricação de vários tipos de discursos, cuja coexistência se torna possível pela sua adaptação tanto ao discurso doutrinal do movimento Vie Libre, quanto à responsabilidade que ele atribui ao álcool, enquanto encarnação metonímica da sociedade.” P 30-1
-                     “O estudo do sistema simbólico articulando as representações dos efeitos do álcool sobre o corpo do alcoolista (em particular, sobre importantes órgãos como o cérebro, bem como nervos e sangue) e o papel destas desordens fisiológicas sobre a formação de seu comportamento social permitiram compreender, por exemplo, as razões das reticências manifestadas pelos homens alcoolistas com o tratamento psiquiátrico.”
-                     “Vie Libre gerencia, de uma maneira específica, a identidade do doente.” P 32
-                     “Por outro lado, o trabalho de campo me permitiu constatar que, no Vie Libre, cônjuges dos doentes, mesmo que não bebedores, tendem a se considerar doentes tanto quanto os próprios alcoolistas, atribuindo sua doença ao contágio. [...] Este dado me conduziu à investigação sobre o conteúdo da idéia de contágio. As representações do alcoolismo como doença ‘contagiosa’ [...] enraizadas na noção de doença coletiva desenvolvida pelo movimento, não são resultantes de um desconhecimento das modalidades de emergência desta ‘doença’, mas da tradução de uma concepção de alcoolismo que lhe atribui a capacidade de afetar fisiologicamente os indivíduos que se encontram em uma relação social estreita com o doente.”
-                     “Minha tarefa era, portanto, compreender o sentido de condutas aparentemente incoerentes (como, por exemplo, o fato de um doente recorrer a uma instância terapêutica que ele julgue menos eficaz) e saber o que está em jogo na determinação destes recursos. [...] O estudo das situações em que esta defasagem pudesse ser observada evidenciou os motivos ou os empreendimentos capazes de explicá-la, mediante a proposta da noção de ‘estratégias paradoxais’. Por esta noção, designei tanto as condutas adotadas com fins terapêuticos, mas geradoras de condições patológicas capazes de reforçar o mal contra o qual o sujeito procura lutar [...] Trata-se de estratégias adotadas, de maneira explícita, para resolver um problema de saúde, e, de maneira implícita, para responder a outras necessidades, dando lugar a uma outra lógica.” P 32-3
-                     “Hoje, todavia, parece-me necessário distinguir: de uma parte, as condutas elaboradas com fins terapêuticos, mas cujos efeitos são contrários; e, de outra parte, as condutas que são elaboradas com outros fins não terapêuticos, porque elas são supradeterminadas por outras questões (mas seguidamente de ordem relacional).”

As atitudes culturais em face da receita e dos medicamentos

-                     “[...] decidi estudar as condições de uso da receita médica [...]” p 34
-                     “fixei-me sobre as relações entre representações e práticas sociais relativas à doença, desejei compreender a relação entre o pertencimento cultural e as estratégias terapêuticas, limitando o pertencimento cultural à origem religiosa, e as estratégias terapêuticas às condutas quanto às prescrições médicas.”
-                     “O conjunto dos resultados obtidos revela a relação que estes pacientes, e diferentes grupos culturais, mantêm com a autoridade médica, comparável com a atitude dos pacientes praticantes diante da autoridade religiosa. Além do nível sociocultural dos indivíduos, observamos, por exemplo, mais por parte dos pacientes de origem católica e muçulmana do que por parte dos pacientes de origem judia e protestante, uma submissão mais forte em relação ao médico.” P 35

A mentira na relação médico-paciente

-                     “Portanto, decidi investigar particularmente a prática da mentira e estudá-la como uma prática social como tantas outras, para analisar os resultados e suas significações de um ponto de vista antropológico. Esta prática ainda me interessava pelo fato de que ela correspondia  ao que eu considerava como ‘condutas paradoxais’. [...] A mentira se apresenta como um paradigma da conduta paradoxal, pois ela consiste em esconder a realidade e, conseqüentemente, em impedir o médico de exercer plenamente seu papel.” P 36
-                     “No entanto, a mentira não é uma conduta apenas dos pacientes, ela é também praticada pelos médicos. [...] por mais racional que ela possa ser (por razões sociológicas e/ou terapêuticas, a mentira do médico é comumente objeto de uma racionalização, uma vez que é pelo ‘bem’ do paciente que o médico mente) [...] Enfim, a mentira apresenta-se como um produto da relação médico-paciente e escapa à explicação pela razão terapêutica, uma vez que ela é subentendida pelas lógicas culturais e sociais.” P 36-7


[1] Pesquisadora do INSERM – Institut National de la Santé et Recherche Médicale e do CERMES – Centre de Recherche Médécine, Sciences, Santé et Societé.